O legado dos samurais é um dos fenômenos mais fascinantes da história humana. Nenhum outro grupo medieval foi tão transformado em lenda quanto esses guerreiros japoneses. Das xilogravuras ukiyo-e aos grandes sucessos do cinema e dos videogames, a imagem do samurai é onipresente. Mas, será que o que sabemos sobre eles é verdade?
Uma nova perspectiva, impulsionada por curadores do Museu Britânico, revela que a realidade por trás dessas armaduras é muito mais complexa — e surpreendente — do que os filmes de Hollywood sugerem.
1. Eles não nasceram como heróis nobres
Diferente da crença popular, os samurais não eram um grupo estático de cavaleiros seguindo um código rígido desde o início. Eles surgiram por volta do século 10 como mercenários recrutados pelas cortes imperiais.
Longe de serem guerreiros altruístas, em campo de batalha eles eram pragmáticos e oportunistas. Usavam emboscadas, trapaças e táticas que muitos hoje considerariam “desonrosas”. O motor de suas ações era frequentemente a recompensa em terras e status, e não apenas o dever moral.
2. O Bushido: O Código de Conduta e sua Evolução
Embora hoje o Bushido (o “Caminho do Guerreiro”) seja visto como uma lei antiga e imutável, ele foi, na verdade, um conceito que amadureceu ao longo dos séculos. O código não era apenas sobre lutar, mas sobre como viver e morrer com dignidade.
Os sete princípios fundamentais do Bushido que moldaram a identidade samurai tardia são:
- Gi (Justiça): Ser honesto em suas decisões.
- Yu (Coragem): Enfrentar o perigo com bravura, mas sem imprudência.
- Jin (Benevolência): Desenvolver compaixão e ajudar os outros.
- Rei (Respeito): Cortesia e educação com todos, inclusive inimigos.
- Makoto (Sinceridade): Palavra de honra; falar e fazer são a mesma coisa.
- Meiyo (Honra): O juiz da própria dignidade é o próprio samurai.
- Chugi (Lealdade): Devoção inabalável ao mestre ou clã.
Curiosamente, muito do que conhecemos como Bushido hoje foi codificado e romantizado durante o período de paz (Edo), quando os samurais precisavam justificar sua existência sem guerras para lutar.
3. Influência Estrangeira e Tecnologia
Você sabia que a icônica armadura samurai tem traços europeus? Em meados do século 16, com a chegada de mosquetes portugueses, os samurais adaptaram suas couraças com designs pontiagudos para desviar balas de fogo. Eles eram mestres da adaptação, incorporando rapidamente tecnologia estrangeira para manter a superioridade militar.
4. "Cultura é Poder": O Soft Power Samurai
Com o tempo, os samurais entenderam que a força bruta não era suficiente para manter o controle. Os Xóguns (líderes militares) adotaram a filosofia neoconfuciana, que exigia um equilíbrio entre o poderio militar e a sofisticação cultural.
Os grandes guerreiros tornaram-se também:
- Mestres da Cerimônia do Chá: Rituais que serviam como ferramentas políticas de negociação.
- Poetas e Pintores: Praticavam caligrafia e artes visuais como demonstração de intelecto e controle.
- Administradores: Com a paz do período Tokugawa (que durou 250 anos), eles deixaram os campos de batalha para se tornarem ministros, coletores de impostos e legisladores.
5. O Papel Crucial das Mulheres
Enquanto os maridos estavam em missões ou servindo ao Xogum em Edo (atual Tóquio), as mulheres administravam a “empresa” doméstica. Elas gerenciavam funcionários, finanças, educação e rituais sociais. Algumas, como a lendária Tomoe Gozen, chegaram a lutar em batalhas reais, demonstrando uma força física e estratégica que desafiava os padrões da época.
6. De Guerreiros a Ícones Pop
A verdadeira história dos samurais não é a de um guerreiro que nunca erra, mas a de uma classe incrivelmente resiliente que soube evoluir de mercenários para aristocratas e, finalmente, para o maior símbolo cultural do Japão.
Este artigo foi inspirado na exposição “Samurai” do Museu Britânico.
Fonte: BBC News