Após o estrondoso impacto cultural e o domínio absoluto no Oscar com Parasita, a expectativa em torno do novo projeto do diretor sul-coreano Bong Joon-ho era gigantesca. Recém-chegado ao catálogo da Netflix, Mickey 17 nos lança em uma ficção científica repleta de humor ácido, cinismo e uma crítica social escrachada.
O resultado? Um filme divertido e curioso, mas que passa longe da genialidade de seu antecessor e deixa aquela clara sensação de que poderia ter entregue muito mais.
A Próxima Parada: Colonialismo e Absurdo Espacial
Longe da sutileza e da tensão sufocante de obras como Memórias de um Assassino ou do próprio Parasita, em Mickey 17 Bong Joon-ho prefere apostar sem medo em uma abordagem caricata.
A trama nos apresenta a Mickey Barnes (Robert Pattinson), um sujeito comum e resignado que, para fugir de uma dívida mortal, se voluntaria para uma missão de colonização espacial ao lado do amigo Timo (Steven Yeun). A expedição é liderada por Kenneth Marshall (Mark Ruffalo), um político megalômano de caráter duvidoso e seguido por fanáticos.
Sem habilidades especiais, Mickey assume o posto de “prescindível”: uma cobaia humana descartável usada em missões suicidas para viabilizar a habitação do novo planeta. A cada morte em serviço, ele é impresso em um novo corpo clonado, mantendo a maioria de suas memórias.
A Minha Opinião: Entre o Brilho das Atuações e as Oportunidades Perdidas Mickey 17 é, em resumo, um bom filme — mas que fica no "quase".
Ele funciona bem como uma sátira sci-fi temperada com um humor ácido muito particular. Tem seus momentos de brilho, é verdade, mas eles são pontuais. Quando comparado a Parasita — que para mim é uma obra amplamente superior —, o longa perde força ao trocar o suspense refinado por uma bagunça por vezes extravagante demais.
No elenco, Mark Ruffalo e Toni Collette entregam atuações intencionalmente exageradas e caricatas; fica nítido que ambos estavam se divertindo horrores no set de filmagem. Mas a grande e verdadeira surpresa fica por conta de Robert Pattinson.
Eu já havia notado uma boa entrega do ator em O Farol, mas ali, dividindo a cena com um gigante como Willem Dafoe, era mais fácil brilhar. Aqui não há Dafoe para escorar a cena, e Pattinson assume o protagonismo sozinho, modulando voz, corpo e dando personalidades distintas às diferentes versões do robótico/humano Mickey. Pela primeira vez na carreira, em minha opinião, Pattinson mostrou serviço de verdade e entregou uma performance extremamente digna.
É uma produção que vale o play na Netflix, mas vá sabendo: é um Bong Joon-ho “descompromissado”, que diverte, mas não marca a história do cinema.
Vale a Pena Assistir?
Apesar de um roteiro por vezes expositivo e de piadas que nem sempre funcionam na velocidade desejada, a ambientação visual, a direção de arte e o ritmo das cenas de ação garantem um bom entretenimento para os fãs do gênero. A presença do elenco secundário — com destaque para a excelente química de Naomi Ackie em cena — ajuda a dar leveza à jornada.
Se você espera o requinte técnico de Parasita, pode se decepcionar. Mas se encarar Mickey 17 como uma aventura espacial cínica e ver de perto a consolidação de Robert Pattinson como um ator de culhão, a experiência vale cada minuto.
Ficha Técnica

Mickey 17 (2025)
O clássico drama O Piano (1993), dirigido por Jane Campion, acompanha Ada (Holly Hunter), uma mulher escocesa muda que viaja para a Nova Zelândia no século XIX com sua filha (Anna Paquin) para um casamento arranjado. Quando o marido se recusa a levar seu piano, um vizinho troca o instrumento por aulas de música, despertando uma perigosa paixão.
Onde assistir: NETFLIX
Diretor: Bong Joon Ho
Elenco: Robert Pattinson, Naomi Ackie, Steven Yeun